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“Desculpe o atraso!...”

“É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus!
Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”.
(Coelho Branco - personagem do livro "As Aventuras de Alice no País das Maravilhas" Lewis Carroll)




        Quem nunca inventou uma boa desculpa para justificar o atraso para cumprir um compromisso que “atire a primeira pedra”. Afinal, não é fácil “sujeitar-se ao relógio” nos dias de hoje. Algumas pessoas, porém, fazem das desculpas sua rotina de vida... As escolas que o digam... Há pais que, insistentemente, descumprem os horários escolares: chegam e buscam os filhos muito depois do horário de entrada e saída.
         - De quem é a culpa?!
       - Do trânsito... Do relógio que não despertou... Do carro que estragou... Ou simplesmente, de uma noite mal dormida, ou do chefe que marcou uma reunião urgente... (- Acontece, né?).
        Sim, acontece. Porém, são sempre os mesmos pais que apresentam as mesmas desculpas...
        - E como fica a escola?
        Vou tentar responder descrevendo uma situação que presenciei...
        Fui a uma escola para uma palestra com os professores que aconteceria ao final do período da aula. Cheguei depois das 18 horas (a reunião estava marcada para as 19 horas). Fiquei estarrecida! Por todo o espaço escolar, havia crianças correndo, gritando, conversando, jogando, brincando...  
        Como as aulas já haviam terminado há mais de trinta minutos, perguntei por que as crianças permaneciam lá. A Diretora me respondeu que é “normal” os pais se atrasarem para buscá-las e, por isso, a escola permanece aberta até que o último aluno seja levado para casa. Ela me relatou, inclusive, o caso de uma mãe que “esqueceu” de buscar o filho de 8 anos (o filho mais velho ficou de buscar o irmão mas não o fez). A mãe só se deu conta do esquecimento às 21h30min. – quando chegou em casa após um “chopinho” com amigos... Convenhamos: Para uma escola que finaliza as aulas às 17h30min, é “muuuuuito” tempo de espera!...
         Resolvi fazer uma pesquisa rápida com amigos e colegas que trabalham em escolas e todos repetiram a mesma coisa: muitos pais costumam se atrasar para levar, mas principalmente, para buscar os filhos. Esses atrasos variam de 15 minutos à uma hora ou mais.
         Conhecedoras da situação, algumas escolas estão multando os pais que se atrasam no horário da saída dos filhos. O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino não sabe precisar quantas escolas já adotaram a medida, nem o valor máximo da multa, mas confirma que a cobrança é uma tendência, pois os atrasos dos pais têm se tornado um transtorno para as escolas.
         Os colégios programam sua estrutura de funcionamento para ir até determinado horário. Depois deste período não existem profissionais responsáveis para “tomar conta” dos alunos. A multa torna-se então, uma alternativa para a escola, que pode, desse modo, remunerar funcionários especificamente para essa tarefa: afinal, as crianças não podem ficar sozinhas...
         Devemos nos lembrar, porém, que esta é uma solução unilateral. Resolve-se o problema da escola. E a questão da criança? Afinal, como se sente um filho cujos pais atrasam continuamente em seus compromissos com ele?
         Ora! Uma criança não tem a mesma noção de tempo do adulto. Para ela, o tempo “do relógio” não tem muito significado. O decorrer do dia é compreendido a partir das experiências que vive.
         Desse modo, a criança entende que quando “acaba a aula” acaba, também, o período de ficar separada de seus pais ou de sua casa. Isso significa que se um atraso de 15 minutos não faz diferença para o adulto, para a criança faz – e muito. O “fechamento do dia” faz parte de sua rotina escolar. Esta programação é importante para que ela se organize e se prepare para a mudança de experiência - e isso precisa acontecer no horário combinado. A partir desse momento, a criança espera por seus pais ou responsáveis porque sabe que, depois da escola, é hora de encontrá-los e ir para casa.
         Quando eles demoram (mesmo que por alguns minutos) a criança se ressente. Tem medo de ficar desamparada, sente-se solitária (já que o grupo com o qual se identifica foi desfeito) e experimenta o isolamento. Crianças muito novas não entendem o que é atraso nem os motivos que podem provocar isso na vida de um adulto e, assim, interpreta que foi abandonada.
Para as maiores, que já dominam um pouco mais o tempo cronológico, o atraso dos pais é também problemático, já que elas relacionam a demora com o fato de não serem uma prioridade em suas vidas.
        E por que os pais se atrasam para esse compromisso tão sério?



        Uma das causas é antropológica: fazemos parte duma cultura que não dá muita importância à pontualidade. Atrasos são tolerados e até previstos em quase todas as atividades. Outra questão diz respeito ao “locus urbano” isto é, ao estilo de vida da sociedade atual. O trabalho exige cada vez mais das pessoas.  As pessoas se dedicam cada vez mais ao trabalho. É um ciclo vicioso. Funcionamos como verdadeiras cópias do “Coelho Branco” de Alice no País das Maravilhas: vivemos sistematicamente correndo, consultando o relógio – e sempre reclamando que estamos “atrasados”...
         Porém, quem tem filho precisa encarar as mudanças que isso provoca na vida - e se programar para dar conta de compromisso tão importante. Claro que imprevistos podem ocorrer na vida de qualquer um, mas quem tem filhos precisa “contar” com essa possibilidade. Mais do que isto, precisa se organizar para que alguém o substitua nesses momentos.
        O que não pode acontecer é o que tem ocorrido: atrasos sistemáticos dos pais. Ora, isso é não assumir o devido compromisso com o filho e com o papel de responsável por ele. Imprevisto nenhum justifica tal situação!
        Além do mais, como exigir pontualidade dos alunos (na entrega das tarefas, dos trabalhos escolares) se os pais não dão/são exemplo? Esta postura contraria os princípios básicos e norteadores do que deveria ser uma educação pautada na parceria Escola & Família...



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